The Leftovers
Examining the Great Brazilian Tupperware Ritual
Brazil may be the leftovers capital of the world. The entire concept of leftovers was basically foreign to me until I moved here, because I rarely hosted shared meals in the UK, and ate like I had hollow legs anyway; so whatever got cooked, got ate. But Brazilians consider it gauche to have no food to offer unexpected guests (more gauche than being an unexpected guest in the first place), or to run out of food mid-function. So leftovers are typically factored into meal prep, just in case.
As a result, Tupperware does a roaring business in Brazil. Households usually stockpile so many Tupperware recipients that they require their own dedicated drawer, and being able to quickly match the container with its lid becomes a coveted art form, passed down from generation to generation.
Tupperware even acts as a social lubricant: guests will turn up to a party with a container of baked goods, for example, and deliberately leave it behind so they have a reason to see their hosts again later on. The jury is still out on whether these containers should be returned to their owners washed and empty, or filled with a new dish of the host’s making.
But either way, Tupperware represents an unexpectedly moving symbol of both parties’ desire to see each other again soon. It’s also a very fun word to say in Brazilian Portuguese – give it a go!
The irony is that Brazilians don’t actually seem to like eating leftovers very much. There is a definite cultural aversion to food that’s been left in the fridge overnight – the so-called “pão amanhecida”, or “bedawned bread” that’s lived to see another day – which is in keeping with Brazilians’ preference for brand new clothes, houses and cars over their second-hand (possibly haunted) counterparts.
Yesterday’s leftovers – “restos de ontem”, or “sobras” – are sarcastically referred to as “resto dontê” or “soborô”, as if they were fancy dishes from France and Japan, respectively. Brazilians will eat leftovers, sure - because letting it go to waste is even more unconscionable. But they won’t be happy about it.
Or more likely, they’ll throw old ingredients together and rebadge the results as a new dish. “Bolinhos de arroz” (fried rice balls) are a common example, as is “arroz carreteiro”, or “arroz surpresa”, made of leftover rice and the chopped-up remains of yesterday’s churrasco. In this way, the Brazilian cook develops a skill set not unlike a talented DJ: remixing yesterday’s leftovers into a novel mash-up that will both avoid waste, and distract their audience from the relentless march of time.
[Para brasileiros ver:]
Resto dontê
O Brasil pode ser considerado a capital mundial das sobras. O conceito de “sobras” era praticamente desconhecido para mim até me mudar para cá, já que raramente recebia convidados para refeições no Reino Unido e, de qualquer forma, comia como se não houvesse amanhã; então, tudo o que era preparado, era consumido. Mas os brasileiros consideram deselegante não ter comida para oferecer a visitas inesperadas (mais deselegante do que ser uma visita inesperada), ou a comida acabar no meio de uma festa. Por isso, as sobras são geralmente levadas em consideração no planejamento de qualquer refeição, por precaução.
Como resultado, a Tupperware faz um sucesso estrondoso no Brasil. As famílias costumam acumular tantos potes de Tupperware que precisam de uma gaveta dedicada só para eles, e a capacidade de encontrar rapidamente a tampa certa se torna uma arte cobiçada, transmitida de geração em geração.
A Tupperware funciona até como uma ferramenta social: os convidados chegam a uma festa com um pote de rabanada, por exemplo, e o deixam lá de propósito para terem um motivo para rever os anfitriões mais tarde. Ainda não se sabe ao certo se esses recipientes devem ser devolvidos aos seus donos lavados e vazios, ou preenchidos com um novo prato preparado pelo anfitrião.
De qualquer forma, o Tupperware representa um símbolo inesperadamente comovente do desejo de ambas as partes de se reencontrarem em breve. É também uma palavra muito divertida de se dizer em português brasileiro – experimente!
A ironia é que os brasileiros, na verdade, não parecem gostar muito de sobras. Existe uma clara aversão cultural à comida que ficou na geladeira durante a noite – o chamado “pão amanhecido”, que sobreviveu para ver outro dia – o que condiz com a preferência dos brasileiros por roupas, casas e carros novos, em vez de seus equivalentes de segunda mão (e possivelmente mal-assombrados).
As “sobras” são sarcasticamente chamadas de “resto dontê” ou “soborô”, como se fossem pratos sofisticados da França e do Japão, respectivamente. Os brasileiros comem sobras, claro – porque desperdiçá-las é ainda mais inconcebível. Mas não vão ficar felizes com isso.
Ou, mais provavelmente, vão junta ingredientes velhos e transformá-los em um novo prato. Bolinhos de arroz são um exemplo comum, assim como o “arroz carreteiro” ou o “arroz surpresa”, feito com arroz velho e os restos picados do churrasco de ontem. Dessa forma, o cozinheiro brasileiro desenvolve uma habilidade semelhante à de um DJ talentoso: remixar as sobras em uma mistura inovadora que evita o desperdício e distrai o público dele da implacável passagem do tempo.


Algumas sobras são muito estimadas, porque "incorporam ainda mais o tempero": restos de feijoada, de muquecas, carne assada... O arroz que precisa ser fresquinho, no caso, pra valorizar o "enterro dos ossos" ! Grata pelo relato!
So true, and I dare say that is not only Brazilians culture but any Latin American country.